Foi neste dia 10 de Agosto, mas de 1519, que o português Fernão de Magalhães partiu para a sua viagem de circum-navegação. Partiu, no entanto, de Sevilha, ao serviço do Rei castelhano. Portugal fora-lhe ingrato, na figura de seu Rei D. Manuel I. Depois de ter passado nove anos a batalhar pela Coroa portuguesa em terras do Oriente e de tudo o que para ela conquistou, muito pouco lhe coube em sorte. Iria ainda a Marrocos, onde seria ferido no joelho. A coxear, apresenta-se ao Rei em 1514. Diz-lhe que a sua pensão mensal de 1850 reais é muito curta, e pede-lhe mais… 100 míseros reais. D. Manuel recusa, não só os 100 reais, mas também o comando de uma nau para a Índia. A eterna ingratidão dos senhores donos do Império português. Magalhães parte para Sevilha. A História repete-se (e continua a repetir-se hoje vezes sem conta): os grandes portugueses vão quase sempre buscar lá fora a glória que Portugal lhes nega.
Magalhães mostra cartas ao futuro rei castelhano, D. Carlos, e mostra-lhe a ele e aos conselheiros uma escrava de Sumatra que causa admiração a todos, que nunca tal haviam visto. Alguns comandantes espanhóis não verão com bons olhos serem comandados pelo Almirante português, mas assim acontecerá. Entretanto, no país das más decisões e consequentes arrependimentos, D. Manuel vira o bico ao prego e implora a Magalhães que volte, sob promessa de lhe dar tudo o pedido e mais. Magalhães, homem de palavra, já a tinha dado aos castelhanos, e recusa. A Igreja revela também a sua essência, e um bispo português propõe o assassinato de Magalhães. Mas a oportunidade para tão maléfico feito não surgiria. Ao serviço da Coroa espanhola partem, pois, a Trinidad, a San Antonio, a Concepción, a Victoria e a Santiago, tripuladas por espanhóis, portugueses, italianos, ingleses, alemães e até mouros e cipriotas. Os espanhóis desconfiam da técnica portuguesa de navegar executada por Magalhães, totalmente desconhecida para eles. Amotinam-se, mas são subjugados por Magalhães.
A Santiago naufraga, a San Antonio deserta. As três naus restantes conseguem passar o estreito que ainda hoje é o de Magalhães, e é assim alcançado o Oceano que a Magalhães lhe pareceu Pacífico e que também mantém hoje o nome. Já as ilhas de São Lázaro viriam a ser renomeadas: Filipinas, em homenagem a Filipe II. E é nelas que Magalhães perde a vida. O Almirante havia convertido ao cristianismo o Rei de Cebu, não pelas armas, mas pela sedução argumentativa. E nomeia-o senhor do Arquipélago. Mas o rei da ilha de Mactan não quer reconhecer a sua autoridade. Magalhães desembarca em Mactan, mas os recifes de corais não permitem a aproximação dos escaleres armados. Os nativos cravam-lhe setas. Um tripulante italiano escreveria mais tarde: “Assim tiraram a vida ao nosso espelho, à nossa luz, ao nosso amparo, ao nosso capitão fiel”. Com a sua morte chega a desordem. A Trinidad mete água e é abandonada e a Concepción é queimada. A Victoria, como se o seu nome fosse já um prenúncio, é a única a concluir a viagem, comandada por Sebastián Del Cano, com 18 homens que sobraram dos 250 à partida. Com as especiarias que carrega, paga os outros quatro navios, e ainda sobra lucro.
Fez-se desaparecer o diário de bordo de Magalhães, e Del Cano, um dos ex-amotinados, é glorificado. O feito de Magalhães estaria hoje esquecido. Mas não. Pigaffeta, o marinheiro italiano, continuou fiel ao Almirante português, mesmo depois de morto, e revelou a verdade sobre o seu grande Almirante, que os guiou a bom porto quando todos os outros já duvidavam. E assim morreu Magalhães, prestando a Espanha os altos serviços que Portugal recusou. Hoje é o Nobel Saramago, por exemplo, que, maltratado pelo seu país, procura refúgio em Espanha. E amanhã, quem será?